POR QUE OS HAITIANOS QUE CONSEGUIRAM ASSISTIR O JOGO CONTRA O BRASIL REPRESENTAM TANTO?
- João Flaiban
- há 1 dia
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Os poucos haitianos presentes em Brasil e Haiti carregavam muito mais do que uma bandeira: representavam um povo dividido entre a celebração de uma noite histórica e as barreiras impostas pelas políticas migratórias dos Estados Unidos.

Na noite de ontem (19), o Brasil venceu o Haiti por três a zero e garantiu a liderança temporária do grupo C da Copa do Mundo. Embalados com a atuação, a Seleção brasileira enfrenta a Escócia na próxima quarta-feira.
O estádio, mais uma vez, estava lotado. A maioria vestia verde e amarelo, cerca de 80 a 90% segundo repórteres do GLOBO, mas os poucos que vestiam azul e vermelho carregavam uma história que ia muito além do futebol.
O Haiti não se classificava para uma Copa do Mundo desde 1974, quando a competição foi sediada na ainda Alemanha Ocidental. Desde lá, foram muitos anos de espera de um povo apaixonado pelo esporte e que sofre diariamente com embargos, restrições e problemas sociais.

Nazaire, fundador e presidente de um clube haitiano de futebol no Queens, na cidade de Nova York, contou ao Documneted que a classificação histórica do Haiti para essa Copa teve um sentimento ambíguo.
“Esperamos 52 anos para nos classificar e agora nem podemos aproveitar. Conheço muitas pessoas no Haiti que adorariam ir, mas simplesmente não podem”, diz ele.
E a explicação para essa frustração passa pelas recentes mudanças na política migratória dos Estados Unidos. Em junho de 2025, Trump anunciou que cidadãos haitianos, iranianos e de mais outras 17 nacionalidades não poderiam entrar mais nos Estados Unidos por razões de, segundo ele, "segurança nacional". Ainda pelas vozes do presidente norte americano, a medida tem o objetivo de evitar ataques terroristas e outras ameaças.

A decisão contrasta com a flexibilização adotada para outros países presentes no Mundial. Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia, por exemplo, tiveram suspensa a exigência de uma caução de até US$ 15 mil para a entrada de torcedores que possuíam ingressos para a competição.
Na prática, a política migratória transformou a presença de haitianos nos estádios americanos em uma exceção. Enquanto outras torcidas receberam incentivos para acompanhar a Copa, muitos haitianos sequer tiveram a oportunidade de tentar fazer a mesma viagem. A única possibilidade de representar as cores caribenhas nas arquibancadas ficou com quem já mora nos Estados Unidos e, mesmo assim, a situação não é das melhores.
Nesta semana, a comunidade haitiana que vive nos Estados Unidos estão pressionando a Suprema Corte do país para que seja revisto a tentativa do governo Trump revogar o STP (status de proteção temporária), um programa imigratório dos Estados Unidos criado na década de 1990 que concede direito legal de permanência e trabalho a cidadãos de países afetados por guerras, desastres naturais ou crises humanitárias. No contexto do Haiti, o STP tem sido um escudo contra deportações desde 2010, quando um terremoto de escala 7 afetou o país e deixou mais de 300 mil mortos.

Em fevereiro deste ano, Trump havia anunciado que o STP para os haitianos acabaria de forma executiva, ou seja, cerca de 300 mil haitianos que vivem de forma legal no território norte americano teriam que alterar completamente sua situação migratória, ou então seriam mandados para o Haiti, um país ainda instável e com condições difíceis para a volta.
A decisão de Donald Trump chegou à última instância da justiça dos Estados Unidos , que ainda não decidiu se o cancelamento do programa é legal ou não.
O estado vizinho do qual a Seleção se hospeda carrega mais uma história de ligação entre Estados Unidos e a comunidade haitiana. Cerca de 170 mil haitianos têm o Brooklyn, em Nova York, como sua casa, mas convivem com recentes problemas, principalmente após o endurecimento das regras anti- imigração do governo norte americano.

A vereadora haitiano-americana Rita Joseph, descreve como o endurecimento das políticas de Trump impactaram a comunidade. “Quando o ICE começou a intensificar as deportações, aquilo virou uma cidade fantasma.”
As prisões de cidadãos haitianos pelo ICE em Nova York também aumentaram 875% no último ano, passando de 16 em 2024 para 156 em 2025.
Assim, em meio a mais de 68 mil torcedores presentes na Filadélfia, cada camisa azul e vermelha representava muito mais do que apoio à seleção. Em um momento em que a fronteira se tornou uma barreira para milhares de haitianos, chegar ao estádio já era, por si só, uma vitória.



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