POR QUE ELES SÃO OS VILÕES DOS RACISTAS ESPANHÓIS?
- João Flaiban
- 21 de jul.
- 4 min de leitura

Lamine Yamal e Nico Williams, filhos de imigrantes africanos, se tornaram protagonistas de uma Espanha multicultural que ainda enfrenta dificuldades para aceitar essa própria identidade. Enquanto brilham dentro de campo, os jovens também passaram a ocupar um espaço de destaque em debates sobre racismo, imigração e intolerância religiosa no país.
Em meio a escândalos de racismo na copa do mundo, o aumento das discuscuções da importância do posicionamento político de grandes figuras como Lionel Messi e a pauta do letramento racial nos trending topics, a Espanha conta com duas jovens estrelas que não se escondem em meio aos tópicos sensíveis, mesmo com pouca idade.
A Seleção nacional é apenas é um refelxo do multiculturalismo presente na sociedade espanhola atual. Mesmo com resistência, a Espanha tem se tornado um centro de diferentes vivências e culturas. Em apenas dois anos, o território espanhol registrou a marca de dois milhões de imigrantes, vindos principalemnte da América Latina e norte da África, de acordo com dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Nos últimos anos, a imigração tem se tornado uma questão cada vez mais polêmica. Em abril deste ano, o governo de Pedro Sánchez aprovou um decreto para a regularização de centenas de milhares de imigrantes sem documentos em Espanha. Numa entrevista à Euronews, o ministro da migração defendeu a política de migração espanhola, que tem sido questionada por outros líderes da UE e por membros de partidos opositores dentro da Espanha.

Ao longo dos últimos anos, o partido ultradireitista"Vox" tem ganhado visibilidade em território espanhol por defender uma nação com "identidade espanhola". Em 2025, o partido defendeu abertamente a expulsão dos imigrantes do país, sob a justificativa de que não se acostumaram aos valores locais. Além disso, parte do partido liderado por Santiago Abascal, relaciona diretamente a chegada de imigrantes, especialmente do norte da África, ao aumento da criminalidade nos bairros.
Apesar de ter bases racistas e xenofóbicas, esse pensamento vem crescendo, não só na Espanha, mas na Europa como um todo, que vive um momento conturbado, se tornando o centro de procura em meio às crises humanitárias. É nesse contexto que dois dos maiores talentos do futebol espanhol aparecem como símbolos de uma Espanha que parte da sociedade ainda reluta em reconhecer.
Nico Williams, autor da assistência para o gol de F. Torres na final da Copa, é filho de imigrantes ganeses que se mudaram para a Espanha para tentar uma vida melhor. Maria e Félix Williams atravessaram o deserto do Saara descalços e sem os suprimentos necessarios para chegar à Europa. Esperando o primeiro filho, Iñaki Williams, o jovem casal usou suas últimas finanças para pagar uma rede de tráfico humano, entretanto foram abandonados no meio do caminho.
Um advogado que atravessou pelo caminho dos ganeses aconselharam-os a falarem que estavam vindo do Libéria, um país que estava em guerra na época, para que pudessem entrar na Europa com mais facilidade. Após esse sufoco, foram acolhidos em Melilla, território espanhol no norte da África, onde deram luz á Iñaki e, oito anos depois, já em Pamplona, à Nico.
Anos depois, Nico resumiria essa trajetória em uma frase à revista FourFourTwo:
"Desde pequeno aprendi o que é sofrimento" - Nico Williams.

Nico, por ser um jovem negro de origem periférica e filho de imigrantes africanos, foi alvo de xênofobia e racismo durante sua vida toda, inclusive dentro dos estádios, mas nunca se calou. Em 2024, por exemplo, foi chamado de "macaco" por torcedores do Atlético de Madrid no estádio do rival e, ao marcar o gol da vitória, foi de frente para os racistas e fez questão de destacar sua cor e sua identidade.

Além disso, Nico usa frequentemente sua voz para repudiar o racismo em território espanhol. Após ataques racistas à Vini jr, Nico repudiou os atos em uma entrevista ao "AS": Eles o insultam porque é um grande jogador e porque é negro. Isso é muito ruim e temos que cortar essas coisas. Futebol é para ser apreciado, não para insultar."
Se Nico representa a experiência de filhos de refugiados africanos, Lamine Yamal simboliza outra face da nova Espanha: a de jovens descendentes de famílias muçulmanas que convivem diariamente com episódios de preconceito religioso e xenofobia.
O pai de Lamine, Mounir Nasraoui, é marroquino, e sua mãe, Sheila Ebana, é da Guiné Equatorial. O jovem astro do Barcelona nasceu em Esplugues de Llobregat, mas foi criado em Rocafonda, um bairro periférico e estigmatizado na cidade de Mataró, Catalunha. Yamal homenageia constantemente o local fazendo o gesto "304" com as mãos, que é o código postal da região (08304), uma forma de relembrar suas origens periféricas.

O cria do Barcelona nunca escondeu sua origem nem suas crenças. Pelo contrário, Yamal, mesmo com somente dezenove anos, se posiciona e mostra ao Mundo as bandeiras que defende.
Durante o amistoso preparativo para a Copa desse ano contra o Egito, a torcida espanhola cantava "quem não pular é muçulmano". Os cânticos reproduzem uma manifestação de islamofobia recorrente em episódios envolvendo grupos extremistas no país, que não enxergam muçulmanos como seres "espanhóis". Porém, Lamine, a principal estrela do time, é muçulmano e repudiou o cântico após a partida:
"Ignorantes e racistas" - Disse Lamine.

Durante a comemoração do título espanhol deste ano, Yamal apareceu com uma bandeira Palestina, gesto interpretado como demonstração de apoio à população palestina em meio ao conflito no Oriente Médio. Além desse caso, durante o El clássico desse ano, Yamal e Raphinha, do Barcelona, foram alvo de racismo. Ambos denunciaram e fizeram três espanhóis serem presos por injúria racial.
Para o jornalista e pesquisador Fernando Beagá, o engajamento de atletas em pautas sociais pode ampliar o alcance desses debates, visando a adesão, principalmente de crianças e adolescêntes, ao atleta.
Nico Williams e Lamine Yamal representam uma geração que cresceu em uma Espanha muito diferente daquela vivida por seus pais. Enquanto um é filho de refugiados ganeses que atravessaram o Saara em busca de uma vida melhor, o outro carrega com orgulho suas raízes marroquinas e guineenses. Dentro de campo, são dois dos maiores talentos do futebol mundial. Fora dele, acabaram transformados em símbolos de debates que ultrapassam os 90 minutos. Em um país onde imigração, identidade e preconceito ocupam cada vez mais espaço no debate público, suas trajetórias mostram que o futebol continua sendo um dos principais espelhos da sociedade espanhola.



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