top of page

POR QUE A SELEÇÃO FRANCESA PRECISA PROVAR QUE É FRANCESA?

  • Foto do escritor: João Flaiban
    João Flaiban
  • 9 de jul.
  • 3 min de leitura
Mbappé com a seleção francesa na Copa de 2026.
Mbappé com a seleção francesa na Copa de 2026.

Depois da eliminação do Paraguai para a França no último sábado (4), a senadora Celeste Amarilla fez ataques racistas à Mbappé. Dentre as ofensas proferidas pela política paraguaia, a ascendência do jogador foi a que mais ganhou destaque:


“Camaronês colonizado que finge ser francês, rancoroso, novo rico, arrogante e feio”.


Comentário de Celeste no 'X'.
Comentário de Celeste no 'X'.

A fala parece apenas mais um caso de racismo nas redes sociais. Mas ela revela um debate muito mais antigo. Afinal, por que tantos jogadores da seleção francesa vivem tendo sua nacionalidade questionada, mesmo tendo nascido no país?


A França abriga uma das maiores populações com origem imigrante da Europa. Esse cenário é consequência de seu passado colonial e da chegada de trabalhadores estrangeiros para impulsionar a reconstrução e o crescimento econômico do país ao longo do século XX. A formação dessa população aconteceu em diferentes períodos, acompanhando as mudanças econômicas e políticas da França.


Grande parte desses imigrantes vieram de territórios que fizeram parte do antigo império colonial francês, especialmente na África e no Sudeste Asiático. Entre o fim do século XIX e, principalmente, no período pós-Segunda Guerra Mundial, o governo francês incentivou a entrada de mão de obra estrangeira para atender à alta demanda da economia durante a fase de forte expansão conhecida como Trente Glorieuses ("Trinta Anos Gloriosos").


Não demorou muito para essa que essa geração de imigrantes consagrasse craques que vestiriam, mais pra frente, a camisa da Seleção francesa, como Zidane, principal nome da história da futebol francês que tem ascendência Argelina.


ZIdane com a camisa da França.
ZIdane com a camisa da França.

Segundo dados do Insee, a França possui cerca de 6,3 milhões de estrangeiros (nascidos sem a nacionalidade francesa) e 8 milhões de imigrantes (nascidos no exterior). Isso significa que uma parcela considerável da população francesa cresceu em famílias marcadas pela imigração.


Apesar dessa diversidade, a imigração continua sendo um dos temas mais polarizadores da política francesa. Pesquisas de opinião realizadas ao longo das últimas décadas mostram que parte da população ainda associa a imigração à perda da identidade nacional. Um censo realizado pela SOFRES em maio de 2000 revelou que 59% das pessoas estimavam que “a França tem imigrantes demais”, 47% “não se sentem em casa na França” e 73% consideram que “os valores tradicionais não são suficientemente defendidos na França”.


A seleção francesa acabou se tornando um reflexo desse debate. Como reúne atletas de diferentes origens, ela frequentemente é usada como símbolo nas discussões sobre imigração, identidade nacional e pertencimento.


Em 1998, quando conquistou seu primeiro título mundial, a equipe foi celebrada como a "Black-Blanc-Beur", expressão que exaltava uma França negra, branca e árabe unida pelo futebol. Pouco mais de uma década depois, durante a crise esportiva que culminou na Copa de 2010, parte desse discurso mudou. A mesma diversidade antes celebrada passou a ser alvo de críticas e questionamentos sobre quem realmente representava a França.



Mais de uma década depois, mesmo após outra Copa conquistada, o debate ainda acontece, inflamado principalmente por pautas antiimigração levantada no últimos anos em países europeus. Nos momentos atuais, tem virado costume ver comentários nas redes sociais incentivando esse pensamento. Inúmeras pessoas seguem dizendo que a França é uma seleção africana por só ter jogadores nascidos em outros países, o que é uma mentira que carrega anos de preconceito.


Dentre todos os atletas da Seleção atual, apenas quatro não nasceram na França. São eles: Olise (Inglaterra), Thuram (Itália), Samba (República Democrática do Congo) e Maignan (Guiana Francesa). Alguns dos principais nomes tem ascendência de outros países por serem filhos de imigrantes. Mesmo assim, o debate sobre a "francesidade" do elenco continua.


Nos últimos anos, com o crescimento eleitoral da extrema direita e o endurecimento do debate sobre imigração, parte dos jogadores decidiram se posicionar publicamente.


Diante desse avanço no Parlamento Europeu e às vésperas das eleições legislativas na França em 2024, Kylian Mbappé, principal estrela e capitão dos Bleus, criticou a extrema direita e convocou os jovens eleitores a votarem: "Estamos num momento crucial na história do país. Você tem que saber resolver as coisas e ver suas prioridades".


Mbappé em entrevista coletiva em 2024.
Mbappé em entrevista coletiva em 2024.

Como resposta, Marine Le pen, filha de Jean-Marie Le Pen, principal nome ultradireitista do país e abertamente contra a imigração, disse que Mbappé não representa a população imigrante francesa.


Koundé e Thuram, através de suas redes sociais, também protestaram contra o avanço dos movimentos extremistas no país.


A declaração de Celeste Amarilla não inaugurou esse debate. Ela apenas reproduziu um discurso que acompanha a seleção francesa há décadas. Em um país marcado pela imigração e pela diversidade, a equipe nacional se tornou um símbolo das disputas sobre identidade e pertencimento. Para muitos de seus jogadores, vencer Copas do Mundo nunca foi suficiente para deixarem de ser questionados como franceses.


A seleção francesa entra em campo hoje no duelo contra Marrocos válido pelas quartas de final da Copa do Mundo FIFA 2026.




 
 
 

Comentários


bottom of page