A BIOMETRIA FACIAL REALMENTE DEIXOU OS ESTÁDIOS MAIS SEGUROS?
Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, das 49 prisões no Nubank Park com a tecnologia do reconhecimento facial, 35 foram por falta do pagamento de pensão alimentícia, mais de 70% das prisões. O dado, celebrado pelo público e pelas autoridades, evidencia a expansão da medida consolidada em 2025 pela Lei geral do Esporte, em que tornou obrigatório o uso de reconhecimento facial em estádios com capacidade superior a 20 mil pessoas. Entretanto, o que parece ser uma vitória incontestável da tecnologia no esporte, esconde debates profundos sobre privacidade, segurança pública e justiça.
Para Raquel de Oliveira Souza, Doutora em Ciências Sociais pela UERJ e coordenadora da linha de violências e convivências do observatório social do futebol, o futuro da segurança nos estádios não necessariamente passa por esse método de reconhecimento “Até o instante, não há uma grande alteração no volume e nem na redução dos casos de violência no futebol. Então a gente se questiona se é realmente uma política pública válida ou se é uma política adotada para mais uma camada de vigilância com os torcedores.”
Um dos principais gargalos apontados pela especialista é a falta de padrão no país. Como o Brasil é uma república federativa, cada estado tem autonomia para decidir como integrar, ou não, a tecnologia dos estádios aos bancos de dados da segurança nacional.
Em São Paulo, por exemplo, há cruzamento direto entre as catracas e a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Já no Rio de Janeiro, em estádios como o Maracanã, a medida funciona única e exclusivamente como controle de acesso à entrada.
Raquel também chama atenção para a falta de relatórios sobre a precisão dessas ferramentas. “É fácil apontar os acertos, mas qual é a taxa de erro que essa tecnologia cometeu? Não há nenhum relatório publicado que apresente isso. E mais: quais são os dados de torcedores que estão sendo compartilhados entre empresas sem que a população tenha essa noção?", questiona a doutora
Outro ponto de atenção com a tecnologia de reconhecimento facial nos estádios é a neutralidade dos bancos de dados utilizados no processo. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) reforça que, por serem programadas por humanos e alimentadas por uma base de dados historicamente desigual, a tecnologia tende a apresentar maior taxa de erros com pessoas negras, mulheres e pessoas dissidentes de gênero.
Ademais, Raquel aponta outro problema, a falta de atualização nos cadastros policiais. Durante pesquisas de campo, a pesquisadora encontrou casos em que o sistema apontou irregularidades indevidas por falhas no cadastro do Estado.
"Vimos o caso de um homem branco retido na catraca por um suposto mandado de prisão em aberto. O fato é que ele já tinha cumprido sua pena e estava quite com a Justiça, mas o Banco Nacional de Mandados não tinha sido atualizado", relata.
O avanço do reconhecimento facial nos estádios já mudou a forma como a segurança é feita, mas ainda deixa perguntas em aberto. Se a tecnologia permite identificar pessoas procuradas pela Justiça, também pode gerar abordagens equivocadas e ampliar a coleta de dados dos torcedores.
Entre a promessa de mais segurança e os riscos de uma vigilância cada vez maior, o tema da biometria facial permeia entre os debates esportivos e sociais.



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