Por que há tantos fãs do Arsenal na África?
- João Flaiban
- 24 de mai.
- 4 min de leitura
O título inglês do Arsenal encerrou um jejum histórico, mas revelou algo ainda maior: para boa parte da África, os Gunners representam muito mais que um clube de futebol.
Com fim do jejum e o título inglês do Arsenal, que veio após um hiato de 22 anos, os fãs dos "gunners" não perdoaram e saíram para as ruas comemorar. Entretanto, essa festa não se restringiu somente ao território inglês. Os fãs do Arsenal estão espalhados ao redor do mundo todo, mas, especialmente no continente africano, a conexão é diferente. Lá, o time vermelho de Londres não é só mais um clube... é um símbolo.
A imagem abaixo mostra as ruas de Nairóbi, capital do Quênia, após a conquista da Premier League na última semana. Milhares de torcedores se reuniram para comemorar.

Após a repercussão, outras surgiram. A imagem abaixo mostra a comemoração em Addis Abeba, na Etiópia.

Renato Senise, correspondente da ESPN na Inglaterra, contou que, quando foi à Addis Abeba para a cobertura da Cúpula da União Africana, perguntou para um motorista local sobre a relação com o Arsenal. O mesmo o disse que os Gunners são tão populares na Etiópia, que em dias de jogos importantes, a capital fica pintada de vermelho.
Essa conexão entre Arsenal e África é intrigante, mas tem uma explicação histórica. A base dessa ligação tem raízes no decorrer do século XX, principalmente no pós-guerra. Londres foi um dos principais focos da imigração caribenha, que moldou para sempre as estruturas raciais da capital britânica.
A principal história dessa época foi da famosa "geração Windrush", um conjunto de milhares de jamaicanos que chegaram em território inglês, primeiramente através do navio 'Windrush' em 1948, um símbolo da vitória dos aliados contra os nazistas na segunda guerra. A chegada dessa geração foi cheia de imbróglios e leis mal resolvidas. Através de uma brecha, os jamaicanos aproveitaram a volta no navio à Europa para tentarem uma vida melhor.

Já dentro de Londres, os mesmos foram jogados às margens da sociedade. Mesmo tendo especializações, tiveram que servir em trabalhos braçais e foram importantes para a reconstrução britânica no pós guerra. Eram marginalizados no norte de londres. Lá, encontraram um lugar para se sentirem abraçados: o Arsenal. O clube sempre se demonstrou aberto aos oprimidos.
Camila Zambo, pesquisadora e integrante do "Ponta de lança", ao ser entrevistada pelo Trivela, contou que, nas áreas da comunidade negra de Londres (Ellington, Hackney e Camden) o investimento governamental era baixíssimo, o que colaborava para a exclusão racial e social daquele povo, diferentemente da parte sul da cidade, onde ficava o Chelsea e os brancos endinheirados, por exemplo.

Foi nos Gunners que aqueles imigrantes jamaicanos descendentes de africanos se viam, se expressavam e se sentiam em casa. Foi dessa geração, inclusive, que surgiram, em anos posteriores, alguns dos principais nomes do futebol inglês recente, como Walker, Sterling e A. Cole.
Após isso, mesmo com uma certa demora, a geração negra inglesa se acostumou a ver no Arsenal sua representação ideal. Ao contrário de outros clubes ingleses que se restringiam a brancos no elenco, os gunners contavam com jogadores negros no elenco. Nascido em Granada, no Caribe, Brendon Batson, por exemplo, foi um dos pioneiros do movimento negro do Arsenal, estreando em 1978.

Mais para a frente, ainda com uma herança familiar e comunitária para os negros ingleses, em meados dos anos 90, a Premier League começou a ser transmitida globalmente. Com a globalização das transmissões , o futebol inglês entrou de vez nas casas africanas.
Com o 'boom' de times históricos dos gunners e com craques pretos no elenco principal, a
África, principalmente a subsaariana, passou a enxergar no Arsenal, o espelho de suas culturas e experiências. Ver o Arsenal jogar daquela maneira e com aqueles jogadores em específico, fez com que uma geração inteira se visse próxima dos ingleses.
Nana Owiti, influenciadora queniana, diz que há mais de 20 anos, quando vários jogadores negros brilhavam na equipe de Londres, a popularidade dos "Gunners" na África disparou. E ainda é enorme.
"Henry fez com que eu me apaixonasse instantaneamente pelo Arsenal porque ele era muito bonito. Depois, olhei de novo e vi Sol Campbell e seu corpo musculoso. E, de repente, Kolo Touré... Todos esses jogadores, todos esses jogadores negros", disse Nana.
Senise chegou a questionar um repórter angolano sobre a popularidade do Arsenal no território: Segundo eles, isso acontece em todo o continente. Na época, Arsenal e United lutavam pelo domínio do futebol inglês. Mas o Arsenal tinha um futebol mais bonito, o que fez a maioria acabar escolhendo os Gunners para torcer."
E, é claro que o jeito de jogar e as conquistas importam. Assim como recentemente, milhares de sul-americanos viraram fãs do Barcelona por conta de Messi, Neymar e Suárez, milhares de africanos ficaram, em meados dos anos 90 e 2000, apaixonados pelo Arsenal, tanto pelo futebol quanto pela representatividade.
Em 2002, os Gunners se tornaram o primeiro time inglês na história a escalar nove jogadores negros em um jogo competitivo.

O resultado desse sentimento de pertencimento africano ao Arsenal culminou em uma conexão interminável, que nem mesmo a seca de títulos foi capaz de romper.



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