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"COSTA DO OURO": GANA E INGLATERRA REVIVEM AS MARCAS DE UM PASSADO COLONIAL NA COPA

  • Foto do escritor: João Flaiban
    João Flaiban
  • 23 de jun.
  • 3 min de leitura

Na tarde desta terça-feira (23), Inglaterra e Gana se enfrentam pela fase de grupos da Copa do Mundo. Ambas buscam vencer a partida para já se garantirem no mata-mata, uma vez que as duas seleções conquistaram seus primeiros três pontos já na primeira rodada.


O jogo por si só já tem contornos especiais, mas o confronto coloca frente a frente uma antiga colônia britânica e sua antiga metrópole em um momento em que o debate sobre reparações históricas pela escravidão ganha força internacional.


Antoine Semenyo, comemorando a classificação de Gana.
Antoine Semenyo, comemorando a classificação de Gana.

Antes de se tornar Gana, o território da África Ocidental era conhecido como Costa do Ouro, nome atribuído pelos europeus devido à abundância do minério na região.  A presença britânica remonta aos séculos XVII e XVIII, inicialmente ligada à exploração de recursos naturais e à participação no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.


Em 1807, o Reino Unido aprovou a Lei do Comércio de Escravos, que proibia seus súditos de participar desse comércio em todo o Império Britânico. A medida, no entanto, não aboliu a escravidão em seus territórios, que continuou existindo por décadas.


Representação não oficial do processo de colonização britânica.
Representação não oficial do processo de colonização britânica.

A escravidão só foi oficialmente considerada ilegal em Gana em 1874, quando o território foi transformado na colônia britânica Costa do Ouro. Posteriormente, a Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, consolidou a divisão do continente africano entre as potências europeias, fortalecendo a expansão colonial britânica na região.


Mesmo após o fim do tráfico e da escravidão, a economia local permaneceu voltada à exportação de produtos de interesse europeu, como ouro, cacau e café.


Após a Segunda Guerra Mundial, o enfraquecimento das potências europeias e a consolidação do princípio da autodeterminação dos povos abriram caminho para os movimentos de independência no continente africano.


Em Gana, o processo foi liderado pelo intelectual e político Kwame Nkrumah, uma das principais figuras do pan-africanismo, que defendia a capacidade dos povos africanos de governarem seus próprios destinos. Em 1957, Gana tornou-se a primeira colônia da África Subsaariana a conquistar a independência.


Kwame Nkrumah após processo de independência.
Kwame Nkrumah após processo de independência.

A conquista ultrapassou as fronteiras nacionais e se transformou em um símbolo para diversos movimentos de libertação africanos. Foi nesse contexto que surgiu a Estrela Negra, incorporada à bandeira nacional e que posteriormente daria origem ao apelido da seleção ganesa, as Black Stars. O símbolo representa a emancipação, a liberdade e a resistência diante do domínio colonial.


Torcedores de Gana, representando a expressão "black stars".
Torcedores de Gana, representando a expressão "black stars".

Décadas após a independência, Gana voltou a ocupar o centro de uma discussão internacional sobre as consequências da escravidão.


Neste mês, o país sediou uma conferência internacional destinada a transformar em ações concretas o crescente apoio político às reparações históricas. O encontro acontece poucos meses após a Organização das Nações Unidas aprovar uma resolução que reconhece o tráfico transatlântico de escravizados como "o crime mais grave contra a humanidade".



Embora a resolução não seja juridicamente vinculante, ela representa um avanço importante ao incentivar países envolvidos no sistema escravista a participarem de processos de justiça restaurativa.


Para as autoridades ganesas, o reconhecimento simbólico já não é suficiente. O país defende que as antigas potências coloniais avancem para medidas concretas de reparação, argumentando que os impactos econômicos, sociais e estruturais da escravidão permanecem presentes até hoje.


Voltado para o confronto de logo mais, o treinador da Seleção ganesa, Carlos Queiroz, foi questionado sobre a difucldade da partida e usou o assunto histórico como resposta. Carlos disse que os africanos não tem os três lões no peito (símbolo presente no escudo inglês que representa as três coroas imperiais ritânicas), mas tem trinta e três milhões de "leões" em seu território, fazendo referência à população do país, que é o segundo mais populoso da África Ocidental, somente atrás da Nigéria.


A ligação histórica entre Inglaterra e Gana transbordam até os dias atuais. Muitas pessoas possuem dupla nacionalidade, inclusive jogadores de futebol que estão jogando a Copa do Mundo de 2026.


Lamptey e Semenyo com a camisa de Gana.
Lamptey e Semenyo com a camisa de Gana.

Lamptey e Semenyo, dois dos principais jogadores da seleção ganesa, nasceram na Inglaterra, mas, por conta de ligações familiares, optaram por representar o país africano.


O confronto entre Gana e Inglaterra simboliza justamente esse encontro entre diferentes histórias, memórias e trajetórias. Mais do que uma disputa por pontos, o jogo representa o reencontro entre duas nações conectadas por séculos de colonização, exploração e resistência.

 
 
 

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