A ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA QUE MUDOU AS RELAÇÕES DO JAPÃO COM A TATUAGEM
- João Flaiban
- 29 de jun.
- 3 min de leitura

Na maioria das seleções do mundo, as tatuagens fazem parte da identidade de muitos jogadores. Basta olhar para o elenco do Brasil: grande parte dos atletas tem o corpo marcado por desenhos que contam histórias pessoais. No Japão, porém, a realidade é diferente. Na seleção japonesa, próxima adversária do Brasil, praticamente não há jogadores tatuados (pelo menos não de forma visível).
Enquanto em muitos países a resistência às tatuagens está ligada a questões religiosas ou estéticas, no Japão esse preconceito tem raízes históricas. A explicação passa por séculos de construção cultural e pela associação da arte corporal à maior organização criminosa do país: a Yakuza.

A Yakuza, também conhecida como boryokudan, é a maior e mais antiga organização criminosa do Japão, com mais de quatro séculos de existência. Diferentemente de outras máfias, ela atuou por décadas de maneira semilegal em diferentes setores da economia. Suas tatuagens de corpo inteiro se tornaram uma das principais marcas de seus integrantes e ajudaram a reforçar, no imaginário popular, a ligação entre tatuagem e criminalidade. Embora a organização tenha perdido força nos últimos anos, principalmente devido ao endurecimento das leis e ao avanço da tecnologia financeira, o estigma criado por ela continua presente.
As tatuagens ainda são um tabu na sociedade japonesa. Até hoje, é comum encontrar academias, saunas, piscinas e onsens (as tradicionais fontes termais) que restringem ou até proíbem a entrada de pessoas tatuadas. Embora essas regras estejam se tornando menos comuns, elas mostram que o estigma permanece vivo.
A origem dessa visão remonta ao período Edo (1603–1868). Na época, criminosos eram marcados com tatuagens feitas à força para que toda a sociedade soubesse que haviam cometido algum delito. A marca funcionava como uma punição permanente e transformava a tatuagem em um símbolo de exclusão social.
Com o passar dos anos, porém, a tatuagem também ganhou outro significado. No século XVIII, gravuras ukiyo-e passaram a retratar heróis cobertos por desenhos elaborados, tornando esse estilo popular entre parte da população. O governo reagiu proibindo novamente a prática, mas bombeiros, trabalhadores e, principalmente, integrantes da Yakuza continuaram se tatuando. Para a máfia japonesa, os famosos irezumi passaram a representar coragem, resistência à dor e o compromisso de viver à margem da sociedade.
Segundo Mayumi Nakano, esposa do mestre tatuador Yoshihito Nakano, conhecido como Horiyoshi III, as tatuagens continuam sendo mal compreendidas no Japão. Em entrevistas, ela afirma que muitos japoneses que tiveram pouco contato com outras culturas ainda associam pessoas tatuadas à criminalidade ou à marginalidade.
Esse preconceito chegou até à legislação. Até 2020, tatuadores japoneses podiam ser processados porque a Justiça entendia que tatuar era um procedimento médico e, portanto, só poderia ser realizado por profissionais da saúde. Apenas naquele ano a Suprema Corte decidiu que a tatuagem é uma manifestação artística, encerrando uma disputa que durou anos.
Toda essa construção histórica também se reflete no futebol. A Federação Japonesa não possui nenhuma regra que impeça seus atletas de fazer tatuagens. Ainda assim, são raros os jogadores que exibem desenhos pelo corpo. Muitos simplesmente optam por não se tatuar; outros preferem esconder as marcas para evitar julgamentos.
Um dos casos mais conhecidos é o do zagueiro Yuki Kobayashi. Ex-jogador da seleção japonesa, ele revelou que costumava atuar de mangas compridas porque se preocupava com a exposição de suas tatuagens. Em 2024, outro episódio chamou atenção. O volanteYosuke Ideguchi apareceu sem camisa no banco de reservas e suas tatuagens repercutiram na imprensa japonesa, algo que dificilmente aconteceria em boa parte do mundo.

Por isso, quando Brasil e Japão entram em campo, a diferença entre os corpos dos jogadores vai muito além de uma escolha estética. Enquanto em muitos países as tatuagens são vistas como forma de expressão individual, no Japão elas ainda carregam o peso de séculos de punição, exclusão social e da associação com a Yakuza. O futebol, nesse caso, acaba refletindo uma característica muito mais profunda da sociedade japonesa.



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