A carta para Reinaldo que antecipava a verdade sobre a morte de JK
- João Flaiban
- 9 de mai.
- 4 min de leitura
Documento enviado a Reinaldo durante a Copa de 1978 antecipava suspeitas sobre assassinato de JK pela ditadura.

Na tarde da última sexta-feira (8), um relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto pela ditadura militar, e não vítima de um acidente de carro, como era concluído à época. A informação foi revelada inicialmente pela “Folha de S. Paulo” e a versão da Comissão precisa ser aprovada para se tornar oficial.
O relatório que mudou a versão oficial
Elaborado por Cecília Adão, historiadora renomada, o documento conta com mais de cinco mil páginas com provas sobre o ocorrido, contrariando as então verdades que perduram há 50 anos. Desde 1976, no ano da morte de JK, acreditava-se e era noticiado que o mesmo tinha se envolvido em um acidente na Rodovia Presidente Dutra, quando traçava sua rota de São Paulo ao Rio de Janeiro. Juscelino teria colidido com um caminhão ao tentar fazer uma ultrapassagem e se chocar com um ônibus.

Com o passar do tempo, algumas teorias de que a morte do ex-presidente teria ligação com a “Operação Condor” começaram a surgir, principalmente por conta do contexto de ditadura da época. A operação era uma ação coordenada entre os regimes ditatoriais da América Latina e apoiada pelos Estados Unidos, entre 1975 e 1983, para perseguir e eliminar focos de lideranças regionais.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade descartou a possibilidade dos militares estarem envolvidos em sua morte. Porém, em 2025, o governo Lula reabre o caso, com base em laudos de Sergio Ejzenberg, perito e engenheiro, contratado do Ministério Público em 2019. O parecer contestou a versão oficial do acidente e reacendeu discussões sobre possível envolvimento da ditadura militar na morte de JK. A partir disso, Maria Cecília iniciou a elaboração do relatório.
JK era um político de perfil conservador/desenvolvimentista, que prezava pela democracia liberal e, por consequência, era opositor da ditadura militar brasileira (1964-1985).

A pista para Reinaldo
Apesar da informação ser recente, em 1978, durante a Copa do Mundo na Argentina, Reinaldo, ex-jogador da Seleção brasileira e anistiado pelo governo, já havia tido pistas sobre o caso.
A Copa daquele ano foi marcada por controvérsias políticas. A Argentina, sede daquela edição, vivia o auge do período ditatorial iniciado dois anos antes por Jorge Videla, que, décadas depois, foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade. Ter uma Copa em seu país naquele momento ajudava o regime a construir uma imagem de normalidade institucional diante da comunidade internacional. A própria inteligência militar argentina relatou internamente que já havia "eliminado" (assassinado ou desaparecido) 22.000 pessoas desde o início do regime em 1976 até aquele ano.
O Brasil também vivia um contexto político complicado sob ditadura. Comandado por Geisel naquele ano, o país passava por uma abertura política lenta, mas ainda com repressão. Neste ano, começam a crescer as sindicalizações e revoltas populares no ABC paulista. Com protestos e greves, a classe trabalhadora buscava e brigava por melhorias econômicas e mudanças políticas estruturais.
Foi nesse contexto, que, durante a Copa, após fazer o gol de empate do Brasil contra a Suécia, Reinaldo fez a comemoração do punho cerrado, movimento inspirado no movimento dos Panteras Negras, partido marxista e antirracista dos Estados Unidos. “Foi um gesto socialista, em protesto
pelo fim da ditadura”, conta o mesmo.

Após a partida, já no hotel, Reinaldo contou ter recebido um envelope anônimo da Venezuela. Segundo ele, era um documento com informações em espanhol sobre a morte de Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, ocorrido dois anos antes, em 1976. Ele então se ligou que podia estar sendo alvo da “Operação Condor”, temida à época. “Fiquei aterrorizado, mas não contei a ninguém a respeito do documento”.
Por fim, Reinaldo foi para a reserva. Apesar de Coutinho, treinador da Seleção e ex-militar, alegar problemas físicos, Reinaldo acredita que a determinação tenha vindo de cima, especificamente de Heleno Nunes, presidente da CBD (atual CBF), que tinha ligação com militares. A seleção brasileira precisava que a Argentina não goleasse os peruanos para se classificar à final, o que não aconteceu. Com suspeita de suborno e ajuda de Videla, a seleção da casa goleou o Peru e foi à final para comemorar o título inédito dentro de casa.
Já estava na mira do regime
Três meses antes da Copa, Reinaldo já havia intensificado suas críticas à ditadura militar. O atacante acreditava ter sido retirado da final do Campeonato Brasileiro contra o São Paulo por influência do regime, após receber uma suspensão considerada por ele resultado de articulações entre dirigentes e o Governo.

E não pense que o gesto na Copa não foi pensado. Ídolo no Atlético Mineiro, Reinaldo fazia a comemoração de forma recorrente e era sempre engajado em pautas sociais. Antes da viagem para a Argentina antes da Copa daquele ano, a delegação visitou Geisel no Palácio Piratini, em Porto Alegre. O mesmo, ao cumprimentar Reinaldo, disse: “Vai jogar bola, garoto. Deixa que política a gente faz”. Mais tarde, na concentração, André Richer, chefe da delegação, comunicou o ídolo atleticano que seu gesto era “revolucionário de mais”. Era recomendado não falar de política.
Reinaldo teve sua anistia política aprovada em 2 de dezembro de 2025 e oficializada pelo governo federal em fevereiro de 2026, reconhecendo perseguição sofrida durante a ditadura militar por seu posicionamento contra o regime e
comemorações com o punho erguido. Ele receberá indenização de R$ 100 mil.

Quase cinco décadas depois da Copa de 1978, o gesto de punho erguido de Reinaldo deixa de ser apenas uma comemoração histórica do futebol brasileiro e passa a simbolizar, também, um dos poucos atos públicos de enfrentamento à ditadura em plena vitrine internacional.



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